Através dos canais e das primeiras páginas, Donald Trump acabou por dominar as conversas em França, ultrapassando Emmanuel Macron e remodelando a forma como o país fala de poder, influência e do seu lugar entre Washington e Bruxelas.
Trump lidera a agenda dos media franceses em 2025
Um barómetro mediático anual realizado pelo diário regional Ouest‑France, em parceria com a plataforma de monitorização Tagaday, mostra uma mudança marcante. Pela primeira vez em mais de uma década, o presidente francês em funções não liderou a cobertura interna. Esse lugar simbólico foi, em vez disso, ocupado pelo comandante‑chefe americano.
O estudo contabiliza menções na imprensa, online, televisão e rádio. Entre 1 de janeiro e 15 de dezembro de 2025, Donald Trump foi referido cerca de 947.300 vezes nos meios franceses. Emmanuel Macron surgiu a seguir, com cerca de 671.125 menções - uma diferença grande para duas figuras que já vivem sob holofotes constantes.
Os media franceses falaram de Donald Trump centenas de milhares de vezes em 2025, muito mais frequentemente do que de Emmanuel Macron.
Esta distância não resulta apenas do drama eleitoral nos EUA ou de crises pontuais de política externa. Os meios franceses trataram Trump como uma referência diária: sobre a Ucrânia, sobre Gaza, sobre o futuro da NATO, sobre negociações comerciais, sobre impasses climáticos e sobre temas de “guerra cultural” importados dos EUA.
Porque é que um presidente americano eclipsa o Eliseu
Várias forças empurram Trump para o topo das antenas francesas. Primeiro, o fator espetáculo em bruto. Trump produz um fluxo constante de frases feitas, muitas vezes bruscas ou provocatórias, que encaixam na perfeição nos ritmos das notícias 24 horas, nos clips curtos para redes sociais e nas notificações móveis.
Segundo, as suas decisões tendem a cair diretamente no colo da Europa. Quando ordena ataques em África, surgem perguntas em Paris sobre contraterrorismo, migração e parcerias de segurança. Quando põe em causa compromissos com a NATO, os comentadores franceses voltam aos orçamentos de defesa, programas de armamento e autonomia estratégica.
Terceiro, Trump tornou‑se um marcador nas disputas políticas internas. Políticos franceses à direita elogiam o seu estilo ou posições sobre imigração. À esquerda, alertam para riscos de retrocesso democrático. Editorialistas usam‑no como atalho para um certo tipo de nacionalismo e confronto com instituições.
Trump funciona no debate francês tanto como líder estrangeiro como símbolo interno, amplificando a sua presença muito para além da cobertura diplomática tradicional.
Um top 50 político, com quase nenhuma mulher
O mesmo barómetro sublinha outro padrão: a política continua a dominar as notícias em França. Das 50 personalidades mais cobertas em 2025, 30 vêm da vida política, francesa ou estrangeira. Estrelas do desporto, líderes empresariais e ícones culturais ficam para trás neste campo político superlotado.
Atrás de Trump e Macron, nomes como François Bayrou, Vladimir Putin e Bruno Retailleau preenchem os lugares cimeiros. A lista espelha os temas que ocuparam os talk‑shows noturnos: tensões de coligação, guerra na Ucrânia, sanções à Rússia, preços da energia e reformas constitucionais.
Uma desigualdade de género que se recusa a fechar
Apesar do debate público constante sobre paridade, o ranking mantém‑se fortemente masculino. Apenas uma mulher aparece no top 10. Só duas mulheres chegam ao top 20, e nove ao top 50.
- 1 mulher no top 10 de personalidades mais mencionadas
- 2 mulheres no top 20
- 9 mulheres no top 50
Este desequilíbrio diz tanto sobre as estruturas mediáticas como sobre a própria política. As equipas de liderança partidária continuam a ser maioritariamente masculinas. Grandes programas editoriais convidam muitas vezes o mesmo círculo de analistas e ex‑ministros homens. Quando rebenta uma crise, as redações tendem a chamar figuras que já conhecem, mantendo o equilíbrio antigo no lugar.
Ativistas pela igualdade de género em França apontam ainda outro problema: quando as mulheres aparecem na cobertura, o ângulo foca‑se muitas vezes no estilo, no tom ou na vida pessoal, enquanto os homens recebem mais atenção por movimentos estratégicos e políticas de longo prazo. Esse enquadramento reduz a probabilidade de as mulheres atingirem níveis de cobertura “por saturação”.
Europeus veem Trump como “mais forte e mais decisivo”
A inclinação dos media franceses para Trump acompanha um estado de espírito europeu mais amplo. Um inquérito da Politico em vários países mediu como os cidadãos hierarquizam o peso das eleições americanas face às eleições nacionais.
Na Alemanha e no Reino Unido, mais de metade dos inquiridos disse que a eleição de Trump tem mais consequências para o seu país do que a eleição do seu próprio chefe de governo. Essa perceção, por si só, diz muito sobre a distribuição de poder na aliança ocidental.
A França mostra um padrão semelhante, embora ligeiramente menos acentuado. Cerca de 43% dos participantes franceses sentiram que a reeleição de Trump era mais importante para França do que o destino político de Macron. Muitos citaram garantias de defesa, política de sanções e mercados financeiros como razões.
| País | Percentagem que diz que a eleição de Trump importa mais do que a do seu próprio líder |
|---|---|
| Alemanha | Mais de 50% |
| Reino Unido | Mais de 50% |
| França | 43% |
Para milhões de europeus, uma decisão presidencial dos EUA parece mais próxima de casa do que o resultado de uma votação doméstica.
Os inquiridos atribuíram também a Trump um rótulo que muitos líderes europeus têm dificuldade em reivindicar: “forte e decisivo”. Os apoiantes veem nisso clareza. Os críticos veem teimosia. De qualquer forma, isso alimenta mais um ciclo de cobertura, porque a certeza - ou a aparência dela - gera títulos impactantes.
Um equilíbrio transatlântico frágil
Esta perceção vem acompanhada de desconforto. Em toda a UE, uma maioria disse aos inquiridores que os seus líderes gerem mal as relações com Washington. Suspeitam que as capitais europeias ou seguem demasiado a linha dos EUA, ou falham em estabelecer linhas vermelhas firmes.
Quando Trump aumenta tarifas ou questiona alianças antigas, comentadores franceses e alemães colocam a mesma pergunta: a Europa consegue agir como bloco estratégico, ou continuará a reagir caso a caso? A visibilidade de Trump torna essa ansiedade estratégica mais nítida.
Muitos europeus dizem querer que os seus líderes enfrentem Trump em vez de procurar harmonia a qualquer custo. Essa exigência coloca pressão adicional sobre Macron, Olaf Scholz e outros, que têm de pesar a opinião interna face a laços económicos e de segurança que continuam a passar fortemente por Washington.
Como a dinâmica dos media franceses amplifica Trump
O ecossistema noticioso francês ajuda a explicar por que razão a cobertura de Trump atingiu níveis tão elevados em 2025. Os canais de informação contínua precisam de conteúdo em direto a toda a hora. As publicações nas redes de Trump, as conferências de imprensa e as declarações improvisadas fornecem material pronto a usar.
Os programas noturnos orientados para opinião prosperam no conflito, e Trump serve como detonador fiável. Os seus comentários sobre a “esquerda radical”, a decisão de renomear uma sala de concertos mundialmente famosa com o seu próprio nome, e a mensagem de Natal dirigida “até à escumalha esquerdista”, desencadearam painéis que duraram horas.
Estes programas transbordam para as plataformas sociais. Clips circulam no TikTok, Instagram Reels e X, muitas vezes sem contexto, e depois regressam à cobertura generalista quando jornalistas noticiam o “debate viral”. O ciclo mantém Trump no centro, mesmo quando a questão de política subjacente já mudou dias antes.
A lógica mediática recompensa declarações fortes, e Trump fornece‑as mais do que qualquer líder europeu, criando uma sobrecobertura quase incorporada.
O que isto significa para as democracias em ambos os lados do Atlântico
O contraste Trump‑Macron destaca um desafio mais profundo para as democracias ocidentais: a atenção nem sempre acompanha a responsabilização direta. Os eleitores franceses não podem influenciar o ocupante da Casa Branca, e ainda assim essa figura molda a sua dieta informativa e, indiretamente, partes da sua realidade quotidiana.
Isto levanta questões para os jornalistas. Quanto espaço devem os líderes estrangeiros ocupar na cobertura doméstica? Em que ponto a saturação afasta o escrutínio mais próximo de políticas locais, reformas do custo de vida ou política regional que afetam os cidadãos de forma mais concreta?
Alguns analistas dos media em França defendem regras editoriais mais claras. Pedem limiares mais exigentes antes de tratar um tweet ou uma frase de Trump como notícia de última hora. Também apelam a mais contexto em histórias sobre os EUA, para que o público avalie o impacto real em vez de reagir apenas ao tom ou à retórica.
Olhando em frente: literacia mediática, autonomia estratégica e debate público
Para leitores e espectadores na Europa, esta tendência torna‑se um teste de literacia mediática. Um exercício simples passa por acompanhar quem aparece no seu feed de notícias durante uma semana, anotando se essas figuras têm poder sobre os seus impostos, a sua saúde ou as suas escolas locais. Muitas pessoas relatam um desfasamento entre atenção e influência real.
Professores e ONGs usam agora a presença mediática de Trump como estudo de caso em workshops do ensino secundário. Os alunos comparam volume de cobertura com decisões políticas concretas, como a reforma das pensões em França ou subsídios de energia na Alemanha. Esse contraste ajuda‑os a ver como as narrativas circulam e porque o impacto emocional vence muitas vezes a relevância institucional.
Do lado das políticas, a era Trump alimenta novos argumentos a favor da “autonomia estratégica” europeia. Debates sobre despesa em defesa em Paris, Berlim e Varsóvia referem as suas declarações sobre a NATO. Discussões de política industrial voltam às tarifas e subsídios dos EUA. Quanto mais Trump domina o ciclo noticioso francês, mais forte se torna o impulso, por parte de alguns líderes, para reduzir dependências diretas e ganhar maior margem de manobra.
Se essas ambições se traduzirem em capacidades reais, isso também moldará futuras classificações mediáticas. Uma Europa que atue como ator único, com estruturas de defesa claras e instrumentos industriais, poderá dar aos seus próprios líderes mais peso narrativo. Até lá, um homem em Washington provavelmente continuará a eclipsar o Eliseu nos ecrãs e nas primeiras páginas francesas.
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário